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Conheça a história da primeira mulher chefe na manutenção da Latam

Alexandre Saconi

08/03/2019 04h00

Em janeiro de 2019, Graziella Ferreira ao lado de sua primeira aeronave liberada para voltar a voar, após assumir o cargo de líder de manutenção da Latam. Crédito: Arquivo pessoal

Dos 71 mil profissionais de aviação com licenças ativas em 2018, apenas 8.917 eram mulheres. Ou seja, entre piloto, comissário e mecânico, apenas 13% eram preenchidos por pessoas do sexo feminino, segundo dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

Quando este recorte é feito entre os mecânicos de manutenção aeronáutica, a participação feminina cai para 3%, sendo 267 mulheres na área ante 8.157 homens com licença ativa no ano de 2018.

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Neste universo, uma mulher conseguiu se destacar: no final de 2018, Graziella de Oliveira e Silva Ferreira, de 33 anos, foi promovida ao cargo de líder de mecânica de estrutura da Latam, coordenando uma equipe de 13 homens. É a primeira mulher no cargo na empresa.

Filha de pai marceneiro e mãe dona de casa, ambos nordestinos, aos 18 anos Graziella, a paulistana entrou para a aviação após não ter passado em uma prova para a Aeronáutica, em 2003.

Curso técnico de manutenção

Por sugestão de um sargento da FAB (Força Aérea Brasileira), sua mãe a levou para fazer um curso técnico na área de manutenção de aeronaves. Após concluir o curso, conseguiu passar em um concurso para atuar no Pama-SP (Parque de Material Aeronáutico de São Paulo) em caráter temporário.

Início da carreira de Graziella Ferreira (única mulher da foto) como mecânica de aeronaves no Pama-SP (Parque de Material Aeronáutico de São Paulo). Crédito: Arquivo pessoal

Em 2006, foi contratada pela antiga TAM, onde já se mostrou pioneira: foi a primeira mulher a trabalhar como mecânica de estrutura de aeronaves no centro de manutenção da empresa, em São Carlos (SP). Hoje é líder de sua equipe e mãe de um menino de um ano de idade.

Mas esta história de sucesso não foi sempre confortável para Graziella. Em diversos momentos, sua atuação na aviação foi questionada pelo fato de ser mulher, chegando a sofrer ataques dos profissionais que atuavam ao seu lado.

Leia abaixo a entrevista com Graziella:

UOL — Como lidou com o machismo no setor?

Graziella — Como eu comecei muito cedo na aviação, com 18 anos, eu sempre vivi esse cenário. No quartel [ainda à época do estágio], o pessoal dizia que não sabia o que eu estava fazendo ali, 'por que é que você não vai pilotar um fogão', 'aqui não é lugar pra mulher' etc.

A cada dia, eu tentava me superar com aquilo que eles falavam. Quando surgiu a vaga para líder, na qual eu passei, realmente pensei: 'Nossa, vai ser outro desafio'.

Comandar uma equipe de 13 homens, pensei eu, que ia ser muito difícil, que eles não iriam me aceitar. Mas acabou não sendo tão difícil assim, pois eu já tinha trabalhado com a maioria deles como mecânica.

UOL — Você ainda sente falta da mulher na aviação?

Com certeza. Ainda há um preconceito muito grande com isso. A mulher dentro da aviação, não tem de fazer 100%, tem de fazer 150%. Todo dia você tem de provar que é capaz de fazer aquilo.

Ainda tem de quebrar muitos tabus, e tem de ter muita mulher ainda para dar uma melhorada nessa parte na aviação.

UOL — Como é possível diminuir essa lacuna entre os sexos na aviação?

É a questão do interesse. Muitas vezes, a mulher vê essas barreiras e, ali, ela desiste. Tenha um pouco mais de persistência naquilo que quer, pois, se você persiste, você consegue aquilo que almeja. É muito difícil, e há gente que desiste logo nas primeiras quedas.

UOL — Que exemplo você tira da sua vivência?

Vivendo o que vivo hoje, eu espero que isso seja uma lição para o meu filho, quando ele crescer, ver que a mãe dele venceu. Que houve muitas batalhas, mas que foram vencidas.

Faço tudo isso por ele e prezo muito para que ele viva em um mundo com menos preconceito. Faço para que ele veja uma mulher trabalhando em qualquer profissão, que seja algo natural.

UOL — Quais seus desafios nessa nova etapa da carreira?

Ser líder não é somente delegar. É você estar junto com a sua equipe e fazer com que eles cresçam. Cresci dentro da empresa porque pessoas acreditaram em mim.

Se eu estou em um cargo desses hoje, é porque é necessário, pois há outras pessoas que precisam ser lideradas. Temos de fazer com que as pessoas cresçam, e eu pretendo fazer isso dentro da empresa.

UOL — Qual sua mensagem para o Dia Internacional das Mulheres?

Assim como a empresa tem o lema para que os sonhos das pessoas cheguem aos seus destinos, o meu chegou. E espero que, de todas as mulheres que almejem algum cargo, do mais simples ao mais extraordinário, que elas consigam, que elas batalhem, que elas corram atrás.

Que tenham força de vontade e garra. Porque o caminho é muito difícil, mas que corram atrás e que façam valer a pena. Quando a gente chega ao final, é uma satisfação tão grande que ninguém vai tirar aquilo de você.

Graziella Ferreira atuando, em 2011, na manutenção em aeronaves no aeroporto de Guarulhos (SP). Crédito: Arquivo pessoal

Sobre o blog

Todos a Bordo é o blog de aviação do UOL. Aqui você encontra notícias sobre aviões, helicópteros, viagens, passagens, companhias aéreas e curiosidades sobre a fascinante experiência de voar.

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