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No Dia do Aviador, ela conta o bastidor do trabalho de uma piloto de avião

Vinícius Casagrande

23/10/2018 04h00

Comandante Claudine Melnik na cabine de um Airbs A300 (Divulgação)

No dia 23 de outubro de 1906, o brasileiro Alberto Santos Dumont realizava o primeiro voo com o 14-bis no campo de Bagatelle, em Paris (França). Para lembrar o feito, o Brasil celebra nesta terça-feira o Dia do Aviador, data que homenageia todos os pilotos de avião.

No Brasil, apenas 3% dos pilotos são mulheres (são 1.465 mulheres e 46.556 homens). Uma das pioneiras nessa aérea foi a comandante Claudine Melnik. Ela entrou na TAM em 1992 como comissária de bordo, enquanto terminava sua formação de piloto de avião.

Começo como comissária de bordo

"Eu já estava terminando toda a minha formação de piloto, e o curso de comissária foi uma forma mais rápida que encontrei de entrar em uma companhia aérea. Era uma época na qual a gente encontrava sempre o comandante Rolim [ex-presidente da empresa, 1942-2001], e eu sempre falava para ele que queria ser piloto", afirmou.

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O plano de Claudine deu certo. Depois de um ano e meio como comissária, foi convidada a fazer parte do quadro de pilotos da antiga Brasil Central, uma subsidiária da TAM para voos regionais. Depois de um ano como copiloto, ela se tornaria comandante do turboélice Cessna Grand Caravan.

Primeira comandante em empresa regional

Claudine foi a primeira mulher no Brasil a ocupar o cargo de comandante em uma empresa aérea regional. "Dificilmente se via uma mulher como piloto em uma companhia aérea. Isso gerava curiosidade dos passageiros, mas nunca sofri preconceito", disse.

Naquela época, as companhias aéreas brasileiras já contavam com mulheres pilotando jatos comerciais maiores, mas todas ainda na função de copilotos. Somente em 1996 a gaúcha Carla Roemmler assumiria o comando de um jato comercial, sendo a primeira brasileira a atingir esse feito. Carla foi comandante de Boeing 737-200 na extinta Vasp.

Na aviação, os requisitos para promoção de copiloto para comandante ou para mudança de avião são definidos pelo tempo de trabalho na empresa (o copiloto mais antigo na empresa será o próximo a assumir o cargo de comandante). Carla, Claudine e todas as mulheres passam pelo mesmo processo, sem distinção de gênero.

Voos nacionais são mais complicados para uma mãe

Em 1997, Claudine voltou para a TAM como copiloto do jato Fokker 100. No ano seguinte, integrou a primeira turma de pilotos do Airbus A330, incorporado na frota da companhia para voos internacionais de longo alcance. Em 2001, voltou ao Fokker 100, desta vez como a primeira comandante mulher de jatos da TAM.

Foi exatamente nessa época que Claudine teve seus dois filhos, hoje com 18 e 16 anos. "Quando eles nasceram, eu estava nos voos nacionais, que têm uma escala mais intensa. Era complicado porque tinha de deixar com a babá e nem sempre estava presente. Quando voltei aos voos internacionais, ficou mais tranquilo porque aí a gente passa mais dias em casa."

Claudine teve seus dois filhos quando era comandante de Fokker 100 (Divulgação)

Os pilotos de voos nacionais podem chegar a ficar até seis dias consecutivos fora de casa voando pelo país e dormindo em hotéis, com dez dias de folga por mês. Nos voos internacionais, os pilotos realizam menos viagens. "Como são voos longos, a gente atinge o limite de horas mensais mais rapidamente". Segundo a legislação, os pilotos só podem fazer até 85 horas de voo por mês (somente um voo de ida para a Europa pode ter mais de dez horas de duração).

Quatro a cinco voos ida e volta por mês

Atualmente no comando de um Airbus A350 da Latam (resultado da fusão da TAM com a LAN), Claudine disse que faz entre quatro e cinco voos de ida e volta por mês. Em outubro, dividiu os voos com treinamentos em simuladores. Assim, a escala do mês teve apenas três voos para Nova York (EUA), Madri (Espanha) e Barcelona (Espanha).

Nos voos para Barcelona, por exemplo, a tripulação decola de São Paulo na segunda-feira para chegar a Barcelona na madrugada do dia seguinte. Os pilotos e comissários passam a terça-feira na cidade e embarcam novamente na quarta de manhã, chegando a São Paulo no mesmo dia à tarde.

Dá tempo de conhecer as cidades?

"O descanso mínimo é de 16 horas, e a gente fica quase o tempo todo dentro do hotel. Além de precisar realmente descansar para o voo seguinte, os hotéis costumam ficar perto dos aeroportos para facilitar o deslocamento, o que dificulta os passeios na cidade", disse.

Mas isso não impede completamente que os pilotos conheçam muito bem as cidades para as quais costumam voar. "Tendo a oportunidade e com um pouco mais de tempo na escala, a gente vai sim passear. É que depois de tantas vezes na mesma cidade, a gente já não tem aquela empolgação toda", afirmou.

Principais mudanças em 20 anos

Em mais de 20 anos de carreira, Claudine afirmou que as principais mudanças que sentiu nesse período foram nos processos de treinamento dos pilotos e na segurança do voo.

"Não é que houvesse problemas naquela época, mas hoje os aviões têm equipamentos bem mais modernos, o que deixa tudo mais seguro", afirmou. Aos 49 anos de idade, Claudine diz ter a certeza de que o pioneirismo valeu a pena.

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Sobre o blog

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