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Concorde tinha serviço de restaurante francês, mas era quente e apertado

Vinícius Casagrande

01/03/2019 16h48

Concorde fez seu primeiro voo de teste em 2 de março de 1969 (Divulgação)

O jato supersônico Concorde completaria 50 anos neste sábado (2). Ícone da aviação mundial, o avião realizou seu primeiro voo de teste em 2 de março de 1969 em um voo local em Toulouse (França). Apenas 20 unidades foram produzidas em toda a história e foram operadas pelas companhias aéreas Air France e British Airways.

Se o Concorde não chegou a ser um grande sucesso de vendas, era o sonho de muitos viajantes. O jato supersônico cruzava os céus com o dobro da velocidade do som (cerca de 2.200 km/h) e era um ponto de encontro das principais celebridades mundiais, entre elas estrelas de cinema, políticos, modelos, diretores, autoridades, ministros e presidentes de empresas. Até mesmo o Papa João Paulo 2º chegou a viajar no Concorde.

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Com a aposentadoria em outubro de 2003, o supersônico deixou saudade entre os passageiros e tripulantes que voavam no jato supersônico com regularidade. O comissário de bordo francês Alain Verschuere foi um dos 150 tripulantes treinados para voar no Concorde.

Mesmo 15 anos após a aposentadoria do avião, Verschuere ainda lembra com saudosismo desse ícone da aviação. "Trabalhar no Concorde era um sonho para toda a tripulação", disse.

Serviço de bordo era assinado pelos principais chefs de cozinha franceses (Divulgação)

Clube seleto de passageiros

Com passagens que ultrapassavam os US$ 10 mil, o Concorde era um avião para poucos e exigentes passageiros.

"Os passageiros adoravam voar no Concorde, e era quase sempre o mesmo clube seleto de sortudos, com seus hábitos, os mesmos assentos, a mesma refeição especial e a mesma bebida. Eles não precisavam perguntar, sabíamos de antemão, e eles se sentiam em casa, como se estivessem em seu jato particular", relembra Verschuere.

Passagens para voar no Concorde custavam mais de US$ 10 mil (Divulgação)

Caviar e champanhe Dom Pérignon

Verschuere conta que os comissários da Air France anotavam as preferências dos passageiros e passavam as informações para a tripulação do próximo voo. Assim, antes mesmo de os passageiros embarcarem, os comissários já sabiam os gostos de cada um. "Nosso briefing era muito completo, com o objetivo de satisfazer suas necessidades e vontades."

O serviço de bordo do Concorde era luxuoso e assinado pelos mais premiados chefs de cozinha franceses, como Alain Ducasse. "A comida era a melhor, servida em três etapas, como em um restaurante francês. Tínhamos opções diferentes de pratos quentes, servíamos caviar com vodca e blinis (uma espécie de panquecas tradicionais da Rússia), lagosta e foie gras, finalizado com queijo e sobremesa, com café e o melhor champanhe Dom Pérignon ou equivalente", contou Verschuere.

Apenas 150 tripulantes da Air France foram treinados para voar no Concorde (Divulgação)

Apertado e sem entretenimento

Apesar da sofisticação no serviço de bordo, o Concorde não tinha recursos de entretenimento, como telas de vídeo nos assentos. Entre as refeições, a distração dos passageiros era o relacionamento entre as pessoas a bordo. "No Concorde, as pessoas adoravam andar na cabine para interagir com os outros passageiros. Assim como em um restaurante, hotel ou evento, o Concorde era uma aeronave para ver e ser visto", disse o comissário da Air France.

Por ser um avião feito para voar acima da velocidade do som, o Concorde tinha uma aerodinâmica diferente dos aviões comerciais. Isso resultou em uma cabine de passageiros bem menor, o que deixava menos espaço para os passageiros e também dificultava o trabalho da tripulação durante os voos.

"O Concorde era realmente um avião muito pequeno e apertado por dentro, difícil de trabalhar. Apesar de ser utilizado para voos de longa distância, a preparação era essencial, com o serviço sempre tendo que estar alguns passos à frente da programação do voo. Se eu esquecesse alguma coisa ou pensasse em como realizar uma tarefa determinada, já estaria atrasado", afirmou Verschuere. O Concorde tinha capacidade entre 90 e 120 passageiros.

A alta velocidade trazia também alguns inconvenientes para o conforto, com a alta temperatura. Segundo o comissário da Air France, em algumas áreas, como no meio do avião, o Concorde chegava a registrar até 30 graus.

Esse desconforto, no entanto, era compensado pela vista durante o voo. "Voávamos na estratosfera a uma velocidade incrível, rodeados de um céu azul-escuro, mostrando a curva da Terra. Era espetacular."

O comissário de bordo Alain Verschuere voou por 12 anos no Concorde (Divulgação)

Voos para o Brasil

A bordo do Concorde, Verschuere conta que fez várias viagens ao Rio de Janeiro. A rota entre Paris (França) e o Rio de Janeiro, com uma parada em Dakar (Senegal), foi a estreia do avião na malha da Air France em 21 de janeiro de 1976.

Mesmo com a parada para reabastecimento em Dakar, a viagem entre o Rio de Janeiro e Paris durava a metade do tempo em relação aos demais aviões que faziam a mesma rota sem parada. O tempo total da viagem era de apenas seis horas.

Atualmente comissário de bordo do Boeing 777 da Air France, Verschuere disse que sempre se lembra da época do Concorde quando viaja ao Rio de Janeiro. "Ainda sinto algo especial quando voo para o Rio de Janeiro, porque o Concorde nunca saiu de minha mente. Esses 12 anos que passei voando neste avião mágico foram como um sonho que se tornou realidade", declarou.

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