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Primeiro voo do avião comercial mais rápido da história completa 50 anos

Vinícius Casagrande

31/12/2018 04h00

Tupolev TU-144 durante seu primeiro voo de teste em 31 de dezembro de 1968 (Divulgação)

O último dia do ano de 1968 ficou marcado como o dia em que o avião comercial mais rápido da história fez seu primeiro voo de testes. Diferentemente do que muita gente imagina, não se trata do famoso Concorde, mas do jato supersônico russo Tupolev TU-144.

Enquanto o Concorde podia atingir até 2,04 vezes a velocidade do som, o avião russo chegava a até 2,35 vezes a velocidade do som. No entanto, o franco-britânico Concorde ficou mais famoso porque o avião russo operou voos comerciais por pouco mais de seis meses, entre 1977 e 1978, enquanto o Concorde ficou em atividade por mais de 27 anos, de 1976 a 2003.

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Os dois aviões estavam sendo desenvolvidos simultaneamente. Era época da Guerra Fria, e os russos queriam mostrar que seu poderia tecnológico era superior ao do Ocidente. Para isso, entre outras questões da época, tinham de sair na frente também na corrida pelo desenvolvimento de um avião comercial supersônico (capaz de voar acima da velocidade do som). E conseguiram. O Tupolev TU-144 voou 61 dias antes do Concorde, que levantou voo pela primeira vez em 2 de março de 1969.

O avião russo foi o primeiro a voar e conquistou outros feitos, como o primeiro avião comercial a quebrar a barreira do som e também o primeiro a voar com o dobro da velocidade do som. No entanto, essas marcas foram conquistadas em voos de testes.

O Concorde saiu na frente no que realmente importava: o primeiro voo real com passageiros, realizado em 21 de janeiro de 1976 na rota entre Paris (França) e Rio de Janeiro. O avião russo voaria com passageiros somente no ano seguinte. Ambos tinham capacidade para até 120 passageiros. O Concorde voou pelas companhias aéreas Air France e British Airways, enquanto o Tupolev TU-144 voou apenas pela Aeroflot.

Avião russo tinha bastante semelhança com o Concorde (Divulgação)

Concordski, uma "cópia" do Concorde

Ainda durante o processo de desenvolvimento do avião, havia muita especulação sobre uma possível espionagem russa para copiar o projeto franco-britânico. De fato, o Tupolev TU-144 tinha diversas características aerodinâmicas muito semelhantes às do Concorde, que iniciou seu projeto de desenvolvimento primeiro. Isso rendeu ao avião russo o apelido de Concordski, uma clara brincadeira em referência ao seu concorrente.

As principais semelhanças aerodinâmicas dos dois aviões estavam nas pequenas asas dianteiras perto da cabine dos pilotos, o corte reto das asas e, principalmente, a movimentação vertical do nariz do avião de acordo com a fase do voo, para permitir uma melhor visão dos pilotos.

No entanto, os dois aviões também tinham diferenças significativas. Embora ambos fossem movidos por quatro motores turbojatos, o avião russo contava com entradas de ar bem maiores. A principal diferença, porém, estava no funcionamento dos motores.

No Tupolev TU-144 o sistema de pós-combustão funcionava de forma ininterrupta, enquanto no Concorde ele só era utilizado nos pousos e decolagens. Com isso, o avião russo queimava bem mais combustível, o que reduzia também a sua autonomia e impedia voos mais longos.

Tupolev TU-144 na linha de montagem da fábrica russa (Divulgação)

Acidentes reduziram a vida útil do avião russo

Dois graves acidentes marcaram a curta história do avião russo. O primeiro aconteceu durante a feira de Le-Bourget, em Paris. O avião fazia um voo de apresentação a baixa altura quando os pilotos perderam o controle da aeronave, se chocaram com o solo e morreram.

Naquele momento, um avião Mirage francês voava próximo ao Tupolev TU-144 para fazer imagens do avião russo. Na ocasião, os russos chegaram a cogitar que os pilotos do Tupolev teriam se surpreendidos com a presença do Mirage e feito uma manobra para evitar uma colisão.

As investigações, no entanto, descartaram essa possibilidade. As causas mais prováveis foram falhas do comando dos pilotos ao executar uma manobra indevida a baixa altura e até mesmo a possibilidade de uma câmera de vídeo ter caído na cabine dos pilotos e travado os comandos do avião.

O acidente atrasou o cronograma de desenvolvimento do Tupolev TU-144, o que fez com que o Concorde fizesse o primeiro voo comercial com passageiros antes do avião russo, em 1976. Somente no final do no seguinte, em 1º de novembro de 1977, o TU-144 realizaria seu primeiro voo comercial pela companhia aérea Aeroflot, na rota entre Moscou (ainda na antiga União Soviética) e Alma-Ata, que também fazia parte da União Soviética e hoje mudou o nome para Almaty (Cazaquistão).

A rota foi escolhida para evitar áreas populosas, já que o sistema de pós-combustão dos motores fazia muito barulho. Os voos eram feitos apenas uma vez por semana e duraram apenas pouco mais de seis meses.

No dia 23 de maio de 1978, o Tupolev TU-144 sofreu seu segundo acidente. Durante um voo de teste, houve uma ruptura de uma linha de alimentação de combustível em um dos compartimentos do motor. Os pilotos tentaram fazer um pouso de emergência sem o trem de pouso. Durante a aterrissagem, o copiloto ficou ferido e dois engenheiros de voo morreram.

Com o acidente, a Aeroflot decidiu encerrar a carreira comercial do supersônico russo. Em pouco mais de seis meses, a empresa realizou 55 voos, sempre na mesma rota, com um total de 3.284 passageiros transportados.

Ainda assim, o avião continuou sendo desenvolvido, mas utilizado apenas nos meios militares. A última unidade, de um total de 16 aviões, foi produzida em 1984. O Tupolev TU-144 voou pela última vez em 1999. Atualmente, algumas unidades estão em exposição em museus russos de aviação.

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