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Arquivo : mecânica de aviões

O que acontece quando o avião é atingido por um raio durante o voo?
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Aviões são desenvolvidos para suportar a descarga de um raio (Foto: iStock)

Por Vinícius Casagrande

Ao sobrevoar uma região com tempestade, o avião corre o risco de ser atingido por um raio. Quando isso acontece, o barulho e a luz gerados pelo raio pode causar apreensão nos passageiros. Embora pareça algo extremamente crítico para o voo, as aeronaves são fabricadas para aguentar o impacto de uma descarga elétrica sem sofrer danos nem colocar em risco a segurança do voo.

Segundo o engenheiro sênior Edward J. Rupke, em artigo publicado no site Scientific American, estima-se que, em média, um avião comercial em operação nos Estados Unidos seja atingido pelo menos uma vez por ano por um raio.

Apesar da alta frequência dessas ocorrências, a última vez em que um raio causou um acidente na aviação comercial foi em 1967. Na ocasião, a descarga elétrica provocou uma explosão no tanque de combustível do avião.

Estrutura preparada

Isso ocorre porque a fuselagem do avião é composta principalmente de alumínio. Por ser um bom condutor de energia, a descarga elétrica flui sobre o avião até seguir normalmente seu caminho pela atmosfera.

No caso de aviões mais modernos, feitos com materiais compostos e com menor poder de condução de energia, são acrescentadas fibras de materiais capazes de conduzir a energia para garantir a segurança. Assim, a área interna do avião fica protegida e mesmo as partes externas não costumam sofrer qualquer dano.

Quando um raio atinge um avião, o impacto geralmente ocorre em uma das extremidades da aeronave, como nariz, as pontas das asas ou a cauda. Essas partes são reforçadas com materiais metálicos mais resistentes para suportar melhor a descarga elétrica e dissipar a energia.

Novo jato da Embraer passou por teste de resistência a raios (Foto: Divulgação)

Testes no desenvolvimento do avião

Antes de receber autorização das autoridades aeronáuticas para entrar em operação, os aviões devem passar por inúmeros testes para verificar todos os aspectos do projeto. Um desses testes é feito exatamente para verificar a resistência da aeronave ao ser atingida por um raio.

O E190-E2, novo jato comercial da Embraer que ainda está em fase de testes, passou recentemente por essa prova. Parado dentro um hangar, um protótipo do modelo foi coberto por diversos anéis ligados por fios elétricos. O objetivo é simular descargas elétricas de diversas intensidades.

A corrente induzida passa pelos componentes críticos do avião para medir os efeitos dos raios na sua estrutura. Depois dos testes, os dados coletados são estudados minunciosamente para comprovar a resistência da estrutura do avião ao ser atingido pelas descargas elétricas.

O que são os raios?

As nuvens de tempestades, chamadas de cumulonimbus, são carregadas de partículas elétricas. Quando há um acúmulo excessivo delas, ocorre a perda da capacidade isolante e surgem as descargas elétricas que formam os raios.

A corrente gerada tem diâmetro de poucos centímetros, mas pode atingir a temperatura de até 30 mil graus Celsius. Com o forte calor, o ar ao redor se expande rapidamente, comprimindo o ar vizinho. A compressão se propaga em todas as direções na atmosfera e produz uma forte onda sonora, o trovão.

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A técnica de ensaios não destrutíveis Núbia Fernandes em ação. Foto: Divulgação/Azul

O nome do cargo é complicado: técnica de ensaios não destrutíveis. Na prática, o que Núbia Moreira Fernandes faz é analisar a estrutura dos aviões para detectar falhas que possam comprometer o funcionamento. Seu trabalho determina se um avião pode ou não decolar.

“São testes para detectar uma trinca na fuselagem, numa pá de hélice”, diz. Quando um avião é encaminhado para revisão (check), os testes verificam ainda se o lixamento feito para tirar a corrosão não afinou a estrutura além dos limites permitidos. Ou para ver se, depois de uma colisão com um pássaro (bird strike), alguma peça ficou danificada. O trabalho ocorre durante a noite, no hangar.

O interesse de Núbia por saber como as coisas funcionam vem desde criança. “Quando eu tinha 9 anos, queria saber por que aparecia aquele bonequinho na tela do Tamagotchi”, diz, sobre o animal de estimação virtual que fez sucesso nos anos 1990. A experiência não deu muito certo, lembra. “Foi frustrante, porque eu queria ver como a imagem aparecia, mas não consegui.”

Núbia Fernandes. Foto: Divulgação/Azul

A curiosidade por tecnologia permaneceu. “Sempre gostei de saber como funciona um software, um motor. Isso é uma coisa que me atrai. Sou uma pessoa da área de exatas”.

A mãe de Núbia, no entanto, queria que ela seguisse carreira na área de medicina. Na tentativa de agradar à mãe sem se afastar de sua própria área de interesse, ela fez um curso de radiologia. As técnicas aprendidas podem ser aplicadas tanto em exames de saúde, como os de ressonância magnética, ou no setor industrial, quando se faz uma radiografia dos aviões para detectar falhas, fissuras e desgastes.

E foi por este caminho que ela seguiu, depois de fazer também curso técnico de ensaios não destrutivos no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial. Há cinco anos, ela trabalha na companhia aérea Azul.

Núbia reconhece que não é muito comum ver mulheres na área de manutenção de aviões – ela diz que, em uma equipe de mais de 100 pessoas, aproximadamente dez são mulheres. “Todas são apaixonadas pelo que fazem”, afirma.

A profissional diz não ter sentido nenhuma dificuldade maior em desempenhar sua função por ser mulher. O único desafio enfrentado, em sua opinião, foi o de ganhar a confiança da equipe no início da carreira. “Eu tinha 21 anos quando comecei na área, e tinha que falar com pessoas que trabalhavam com aquilo há 15, 20 anos, que não tinha ficado muito bom, que tinha de refazer. Era complicado, só que mais pela idade do que por ser mulher. Foi só o tempo necessário de adaptação, o tempo para eu mostrar minha capacidade. Tirei de letra.”

Núbia chegou a trabalhar em escritórios e num pet shop antes de seguir carreira na aviação.

Professora virou mecânica

A mecânica Ana Paula Ostroschi. Foto: Divulgação/Azul

Outra funcionária do setor de manutenção também passou por uma área bem diferente antes de chegar ao setor aéreo. Ana Paula Ostroschi foi professora estagiária do ensino fundamental, mas percebeu que não queria dar aulas. Uma prima, que era comissária de bordo, falou para ela fazer o curso.

“Fui na escola de avião e o curso de mecânica me chamou mais a atenção”, diz. “Éramos duas mulheres na classe, eu e uma amiga, a quem eu convenci fazer o curso comigo. No fim ela desistiu e eu permaneci até a conclusão.”

O trabalho de Ana Paula é feito nos intervalos de chegadas e saídas dos aviões no aeroporto. Quando os aviões pousam, é feita uma inspeção externa para verificar se há vazamentos hidráulicos, de combustível, se há algum dano no motor ou na fuselagem. São manutenções rápidas, como uma troca de rodas, abastecimento de óleo e combustível.

“No trânsito, trabalhamos com uma pochete com algumas ferramentas básicas, como chave de fenda, alicate, chave colar, somente para ajustes rápidos em poltronas, motor, equipamentos diversos”.

Ao contrário de Núbia, Ana Paula diz sentir que precisa reafirmar sua competência no dia a dia mais do que outros colegas. Um comentário comum é o de que ela tem mais perfil para ser comissária do que para trabalhar como mecânica de aviões, uma função que muitos consideram ser só para homens.

“Já aconteceu de eu estar abastecendo o motor com óleo e um passageiro ir até um colega e perguntar se era eu a mecânica responsável pelo avião que ele iria voar, com certo ar de espanto no rosto. Então, preconceito ainda vou ter que enfrentar, mas estou preparada”.

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Mecânico de aeronaves pode se formar a distância e ganhar até R$ 12 mil
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Crédito: Reinaldo Canato/UOL

O salário inicial médio de um mecânico de aviões é de R$ 2,4 mil. (Foto: Reinaldo Canato/UOL)

Para se tornar um mecânico de aeronaves, o interessado precisa ter 18 anos ou mais e ensino médio completo. Nessas condições, deve se inscrever em um curso homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), cumprir um ciclo básico e, em seguida, escolher uma entre as três habilitações existentes: GPM (motor motopropulsor), para trabalhar com motores em geral; CEL (célula), para lidar com sistemas da estrutura de aviões e helicópteros; ou AVI (aviônicos), para atuar com componentes elétricos e eletrônicos da aeronave. O salário inicial é de R$ 2,4 mil, em média. Em cargos de chefia, a remuneração pode chegar a R$ 12 mil.

O ciclo básico tem seis meses de duração e inclui disciplinas como aerodinâmica, inglês técnico, motores elétricos, matemática, desenho técnico, combustíveis, legislação e até primeiros socorros, entre outros. Em seguida, outros seis meses são dedicados à habilitação escolhida. “Entre os alunos, há jovens que desejam ingressar na profissão e também profissionais de nível superior, como engenheiros e físicos, que já trabalham na área e precisam se especializar”, afirma Marlei Pereira, coordenadora do Núcleo de Ensino a Distância da Escola de Aviação AeroTD, de Florianópolis. Proprietários particulares de aviões e helicópteros também figuram entre os alunos.

Na escola, o curso é oferecido em formato presencial e a distância. Neste caso, as aulas teóricas são realizadas por meio de videoaulas e atividades no computador. As aulas práticas e as provas ocorrem de modo presencial. Tanto alunos de cursos presenciais quanto dos realizados a distância devem se submeter a uma prova da Anac antes de entrar no mercado de trabalho. Apenas após três anos de experiência com registro em carteira, o trabalhador pode solicitar o Certificado de Habilitação Técnica (CHT), da Anac.

Na Força Aérea Brasileira (FAB), um mecânico de aeronaves pode chegar a coronel, com a progressão da carreira. Confira o vídeo da instituição sobre as possibilidades de atuação desse profissional:

Leandro Quintanilha – leandroq@gmail.com


Avião tem de fazer espécie de endoscopia quando uma ave entra na turbina
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Crédito: Reinaldo Canato

A boroscopia permite verificar partes internas do motor sem desmontagem. (Foto: Reinaldo Canato/UOL)

A manutenção de rotina de aeronaves é mais rápida, eficiente e econômica com o emprego da técnica da boroscopia, uma inspeção do motor feita por meio de uma sonda com uma microcâmera na ponta. Isso evita que o motor seja desmontado apenas para verificação. O processo é semelhante ao da endoscopia, exame realizado em seres humanos e animais para se investigar possíveis problemas no aparelho digestivo.

A boroscopia é usada, por exemplo, para a inspeção das partes internas quando ocorre o que se chama de “ingestão de pássaro”, acidente relativamente comum na aviação. Quando uma ave entra em uma turbina durante o voo, pode se chocar contra peças e causar danos.

Boroscópios de última tecnologia têm tela de LCD sensível ao toque e geram gráficos tridimensionais, com dados atualizados em tempo real. A microcâmera ajuda o mecânico a entender o tamanho do problema (o sistema gera medidas de arranhões e amassados automaticamente). Com essas informações, o profissional pode consultar o manual do fabricante para ver se será necessária a substituição da peça atingida.

“Nos manuais, constam parâmetros para conserto – danos superficiais, dentro de limites estabelecidos, não causam prejuízo ao funcionamento do motor”, explica o diretor técnico da TAM em São Paulo, Sergio Novato. Nesses casos, a boroscopia evita desmontagens comprovadamente desnecessárias de itens muito caros. Motores de aviões comerciais podem custar de US$ 6 milhões (R$ 18 milhões) e US$ 30 milhões (R$ 90 milhões), a unidade – normalmente, são dois por aeronave.

Crédito: Reinaldo Canato

A microcâmera do boroscópio pode ter entre 6 e 10 milímetros de espessura. (Foto: Reinaldo Canato/UOL)

A manutenção desses aviões costuma ocorrer no período da noite, no caso de aeronaves usadas em trechos domésticos, e durante o dia, em aviões empregados em voos internacionais. Isso porque o serviço precisa ocorrer no turno ocioso das aeronaves. Segundo Novato, 87% do trabalho dos mecânicos de avião da empresa são realizados em procedimentos preventivos.

A técnica da boroscopia também pode ser usada para treinamento de mecânicos de avião. Com ela, estudantes podem ver, por dentro, um motor inteiro, em pleno funcionamento.

Leandro Quintanilha – leandroq@gmail.com


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