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Empresas europeias falam em passagem aérea grátis. É possível no Brasil?

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Foto: Getty Images

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Executivos de duas companhias aéreas europeias revelaram recentemente suas expectativas de que, no futuro, as passagens aéreas poderão ser de graça ou tão baratas a ponto de serem consideradas quase de graça. Mas isso é possível? E, principalmente, é razoável imaginar isso acontecendo no Brasil?

Na visão de Michel O’Leary, da companhia irlandesa de baixo custo Ryanair, a receita das aéreas passaria a vir de produtos e serviços vendidos nos aeroportos. “Tenho esta visão de que, nos próximos cinco ou dez anos, as tarifas aéreas da Ryanair serão gratuitas, no caso de os voos estarem cheios”, disse o executivo durante uma conferência realizada no final do ano passado. “Nós vamos fazer dinheiro com a partilha da receita dos aeroportos, de todas as pessoas que vão passar pelos aeroportos”.

Skúli Mogensen, da Wow Air – islandesa de baixo custo, que anunciou tarifas dos Estados Unidos para a Europa por US$ 70 (cerca de R$ 220) – também acredita que as passagens aéreas deixarão de ser a fonte principal de recursos, como afirmou ao site “Business Insider”. O dinheiro passaria a vir de taxas extras e despesas de viagens, como reserva de hotel, aluguel de carro, alimentação. Os voos baratos serviriam para atrair os clientes.

Chances de chegar por aqui

Os dois executivos comandam aéreas consideradas de “ultra” baixo custo, por oferecerem menos serviços a bordo em troca de tarifas mais baixas. No site da Ryanair, depois que a tarifa mais baixa é selecionada, são oferecidos à parte a escolha do lugar no avião, despacho de bagagem (com preços diferentes para pesos diferentes), embarque prioritário, taxa para levar instrumentos ou equipamentos esportivos e até mesmo, em parceria com outras empresas, a contratação de transfer, aluguel de carro ou reserva em hotel.

No Brasil, a discussão sobre a cobrança de serviços ainda é incipiente. O debate do momento é a liberação para a cobrança por bagagem despachada, com a promessa de que a medida resultará em redução do preço das passagens.

Levando em consideração essas diferenças, é possível pensar em um futuro em que as tarifas por aqui também serão tão baixas até chegar a zero, como o cenário imaginado na Europa?

“Não acho impossível, mas só em condições bastante especiais”, diz o economista Cláudio Frischtak, presidente da consultoria internacional de negócios Inter.B.

Uma possibilidade que ele aponta é a adoção deste modelo em rotas mais competitivas, com volume elevado de passageiros, como a ponte aérea Rio-São Paulo ou o corredor Washington – Nova York – Boston. No entanto, o economista não acredita que esse conceito vá se generalizar, e questiona a viabilidade de sua implantação em voos longos.

Para ele, no Brasil, a adoção desse modelo de tarifa zero, se ocorrer, ainda vai demorar. Entre outros motivos, porque não há nenhuma companhia aérea nacional de baixo custo equivalente a uma Ryanair. “A Europa tem um mercado muito aberto e muito competitivo. Acho que pode ser uma tendência de médio prazo na Europa e nos Estados Unidos, talvez.”

Receita vinda dos aeroportos

Em relação ao cenário em que as aéreas passam a compartilhar a receita dos aeroportos, o economista acha isso possível. Ele explica que os aeroportos reúnem três operações: logística, que envolve o transporte de carga e de passageiros, imobiliária, com estacionamento, torres de escritório e hotéis próximos ao aeroporto, e comercial, funcionando como um grande shopping center. E o grande atrativo para frequentar esse “shopping” são as companhias aéreas.

“Ninguém te cobra para entrar num shopping. As pessoas que estão indo para o aeroporto, inclusive para esperar alguém, estão indo por causa da companhia aérea. Então, ela tem que participar desse ganho”, afirma.

Para Márcio Peppe, sócio da consultoria KPMG no Brasil, as aéreas também podem investir em produtos e serviços nos aeroportos, se considerarem o investimento vantajoso. Como exemplo, ele cita uma mudança no conceito das salas vip, que hoje estão relacionadas ao status de quem viaja na primeira classe e na classe executiva.

“Para a companhia poder tirar um fluxo de receita a partir daí, ela pode criar uma sala vip para todos os passageiros, com serviço diferenciado para quem paga mais, porém para quem voa na classe turística, a locação do espaço em uma sala reservada seria paga”, diz. “A empresa aérea tem que entender se, dentro de sua estratégia de negócio, faz sentido investir nisso”.

Peppe menciona também um exemplo do passado, ao lembrar que a Varig chegou a ser operadora de hotéis. “Naquele momento, fazia sentido oferecer hospedagem”. Nada impede que alguma companhia aérea hoje entre no segmento de hotelaria – sabendo, contudo, que competirá com empresas muito experientes no setor, diz ele.

Custos no Brasil

Ao comentar a tendência de passagem “zero” apontada pelas companhias europeias, Peppe afirma que é preciso levar em consideração que a realidade de cada região é diferente. Ele chama a atenção para a “maturidade econômica do continente europeu”, em contraste com a “juventude da economia brasileira”, como fator que favorece a redução de tarifas na Europa, onde o mercado de aviação é mais desenvolvido.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas aéreas brasileiras, em sua opinião, está relacionada à moeda. “Aqui, o fluxo de receita é em real, porém existe um custo muito grande denominado em dólar. Isso impacta diretamente o mercado da companhia aérea”. Com exceção dos salários, pagos em reais, custos importantes estão atrelados à moeda norte-americana, incluindo o leasing (arrendamento) do avião e combustível.

Em sua página na internet, a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) afirma que “se uma europeia de baixo custo operasse no Brasil, sua operação seria, aproximadamente, 27% mais cara. O acréscimo viria das despesas com o combustível no país, além dos encargos trabalhistas, entre outros itens”. A associação não quis comentar a possibilidade de, no futuro, a passagem chegar a zero no Brasil.

(Claudia Andrade)

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