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Asmático ou míope podem pilotar avião? Veja problemas que ameaçam carreira

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Foto: Divulgação/Airbus

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Por Vinícius Casagrande

Problemas de visão, pressão alta, colesterol elevado, sinusite, audição ruim e distúrbios psicológicos são alguns dos fatores que podem por fim ao sonho de quem pretende se tornar um piloto de avião ou de helicóptero, seja para exercer atividade profissional ou somente para pilotar por simples prazer.

Antes mesmo de iniciar o curso teórico, o candidato a uma licença de piloto deve passar por uma bateria de exames médicos para verificar se tem condições físicas e mentais de estar no comando de um avião.

O procedimento para obter o CMA (Certificado Médico Aeronáutico) inclui exames como tipo de sange, hemograma completo, creatinina, colesterol, triglicérides, glicemia, ácido úrico, teste ergométrico, eletroencefalograma, audiometria e radiografia do tórax, dos seios da face e da arcada dentária, além de avaliação clínica e psicológica.

Em relação à aparência, não há limites mínimos de altura ou peso para a liberação médica. O que será avaliado pelos médicos serão as condições de saúde do piloto de acordo com o IMC (Índice de Massa Corpórea). Já no caso das aeromoças, a altura e o peso podem ser um problema para a contratação em alguma companhia aérea.

Para quem pretende pilotar apenas por lazer, o CMA tem validade de cinco anos para os pilotos com até 39 anos de idade, de dois anos entre 40 e 49 anos de idade e deve ser renovado todos os anos após os 60 anos de idade. Já para quem exerce atividade profissional, a renovação do CMA é anual até os 59 anos de idade e semestral após os 60 anos.

Veja os problemas mais comuns que podem acabar com seu sonho de ser piloto.

Foto: Shutterstock

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Visão

Um dos problemas que geram mais dúvidas para os futuros pilotos é em relação à qualidade da visão. Muito comum na população, a miopia e o astigmatismo, independentemente do grau, não são problemas impeditivos.

“O importante é a acuidade visual. A pessoa pode ter 15 graus de miopia, mas se ao colocar os óculos tiver a visão normal, pode ser piloto”, afirma Afrânio Ziolkowski, médico credenciado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para emitir o CMA. A única exigência da Anac é que, a bordo do avião, o piloto tenha um par de óculos reserva e que eles sejam multifocais, quando necessário.

No entanto, há outras doenças oftalmológicas que podem impedir a carreira de piloto. As mais comuns são o daltonismo, hipertensão intraocular, alteração da retina e estrabismo com dificuldade de visão em profundidade.

“Há muitas doenças oftalmológicas que impedem a carreira, porque na hora de pousar o avião é necessário ter a visão de profundidade adequada. Para isso, tem de ter visão de cores, não pode ter exoftalmia (olhos saltados), heterotropia (estrabismo) e muitas outras”, afirma Ziolkowski.

Foto: Getty Images/iStockphoto

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Problemas respiratórios

Asma, bronquite, sinusite e até desvio de septo podem ser elementos que impedem a obtenção do CMA de piloto. Essas doenças podem interferir no bem-estar da pessoa, deixando o voo mais desagradável e impedindo a plena atividade no comando do avião. Nos casos mais graves, até mesmo os passageiros devem informar os distúrbios às companhias aéreas antes do voo.

Isso não quer dizer, no entanto, que alguém que sofra de alguma dessas doenças esteja definitivamente impedida de se tornar piloto. Em algumas situações, como desvio de septo, por exemplo, é possível realizar uma cirurgia para corrigir o problema e se tornar apto novamente. Em outros casos, o médico pode avaliar que o problema não é grave o suficiente para colocar em risco a segurança de voo.

Foto: Thinkstock

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Audição

Ouvir bem é outro requisito fundamental para quem pretende seguir a carreira de piloto. Segundo as determinações da Anac, o futuro piloto dever ser submetido a uma prova com audiômetro de tom puro e não deve ter uma deficiência de percepção auditiva, em cada ouvido separadamente, maior do que 35 dB nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz e 2.000 Hz ou de 50 dB na frequência de 3.000 Hz.

Esse tipo de exame deverá ser repetido a cada dois anos para verificar se o piloto não sofreu perda auditiva com o passar do tempo.

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Distúrbios psiquiátricos

Durante o exame clínico, o futuro piloto é submetido a testes psicotécnicos e uma entrevista com um psiquiatra para avaliar o equilíbrio emocional e se há não indício de doenças psíquicas, como transtornos de personalidade, depressão, esquizofrenia e até mesmo alcoolismo e algumas fobias.

“O indivíduo que não tem equilíbrio emocional não pode exercer uma atividade que depende de uma pronta reação na hora do pouso, da decolagem ou em qualquer outra situação. Quem tem claustrofobia ou medo de altura não pode estar no comando do avião e tudo isso é analisado nos exames psicotécnicos e psiquiátricos”, afirma Ziolkowski.

Foto: Getty Images/iStockphoto/jarun011

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Exames clínicos

Nos exames de sangue e urina, as taxas de colesterol, triglicérides e ácido úrico, por exemplo, devem estar dentro dos limites de normalidade para a população em geral de acordo com as características de cada pessoa. Os exames são repetidos a cada renovação do CMA para garantir que o piloto esteja sempre em boas condições de saúde.

As mulheres também devem apresentar testes de gravidez, já que durante a gestação e o período pós-parto a atividade a bordo não é permitida.

Foto: Getty Image/Anton Starikov

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Saúde bucal

A saúde bucal também é essencial para atividade de piloto. No primeiro exame, o futuro aviador deverá fazer uma radiografia da arcada dentária para identificar se há a presença do número de dentes compatível com a função mastigatória.

No exame clínico, o piloto não pode apresentar cáries profundas, moléstias periodontais e deformidades maxilares ósseas.

A presença de próteses dentárias é aceitável para cumprir os requisitos exigidos pelas normas da Anac, mas ainda assim estão sujeitas a uma avaliação do dentista responsável pelo exame.

Foto: Getty Images/iStockphoto/bernie_photo

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Cardíacos

O eletrocardiograma é um exame obrigatório em todas as inspeções para obter ou renovar o CMA, além de prova de esforço em esteira rolante a partir dos 35 anos de idade e outros exames que poderão ser solicitados a critério do médico que faz a avaliação.

A intenção é identificar qualquer doença cardíaca que possa colocar em risco a vida do piloto e, consequentemente, a segurança do voo.

“São muitos os problemas, pois em voo o indivíduo é submetido a uma diminuição da absorção de oxigênio em virtude da altitude. Com pouco oxigênio, a musculatura miocárdica sofre e, por isso, é uma questão impeditiva”, afirma Ziolkowski.

Entre os principais problemas cardíacos, estão angina pectoris, sopro cardíaco, doença das válvulas, miocardiopatia, distúrbio no ritmo do coração, pressão arterial sistêmica, mantida superior a 140 X 90mmHg, obstrução vascular, aneurisma ou infarto do miocárdio.

Regulamento da Anac

Todas as doenças que podem impedir a carreira de piloto são descritas no RBAC-67 (Regulamento Brasileiro de Aviação Civil). O documento foi elaborado pela Anac seguindo orientações da OACI (Organização de Aviação Civil Internacional).

Os exames para obtenção do CMA devem ser feitos nos hospitais da Aeronáutica ou por médicos credenciados pela Anac.

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