Todos A Bordo

O trabalho e as histórias do ‘síndico’
do Aeroporto Santos Dumont

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Crédito: Divulgação

Quinhões afirma que ficaria entediado se tivesse um trabalho mais previsível. (Foto: Divulgação)

Armando Fabio Quinhões tem 50 anos é supervisor de aeroporto no Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Na prática, ele é uma espécie de síndico do terminal e seu trabalho é percorrer as áreas abertas e restritas do aeroporto, ao longo de oito horas por dia, para observar se tudo está em ordem. Quinhões – e outros quatro colegas que se alternam em turnos na mesma função – atuam como um elo entre os diferentes departamentos do aeroporto, como o de limpeza, o operacional e o de administração. São também fiscais de quase tudo. “É uma vida sem rotina”, diz ele, cujas jornadas podem começar pela manhã, pela tarde e à noite ao longo de uma mesma semana.

São 20 anos na aviação e seis como síndico/supervisor do Santos Dumont. O trabalho inclui muita caminhada, já que precisa percorrer, várias vezes por expediente, os amplos saguões do aeroporto. E nada de patinete motorizado – tudo a pé mesmo. Ele só pega carona em carros de serviço quando precisa verificar algo na pista. Quinhões pode topar com toda sorte de problemas ao longo de sua jornada, mas garante que o maior problema é a manutenção dos banheiros. “Basta chegar um novo voo para cem pessoas usá-los de uma só vez”, diz.

O supervisor se lembra com carinho de alguns passageiros que ajudou no aeroporto. “Uma vez, um senhor me abordou para pedir orientações para a sua primeira viagem de avião. Estava com bagagem e perguntou muita coisa. Horas depois, topei com ele de novo no saguão e perguntei se tinha perdido o voo. Ele respondeu que sua viagem só ocorreria no dia seguinte e que estava ali, de mala e tudo, só para ensaiar.”

Outro estreante o abordou uma vez já na sala de embarque, à procura de seu portão. Quinhões indicou as escadas rolantes e o homem desceu até o lugar correto. “Algum tempo depois, o passageiro voltou para dizer que não pegaria aquele ônibus com ar-condicionado, por mais confortável fosse, porque tinha comprado uma passagem de avião.” O ônibus, no caso, era só para o translado até a aeronave.

Jogo de cintura

O supervisor conta ainda que são relativamente comuns problemas com celebridades em aviões ainda em solo. “Algumas insistem em usar o celular quando já não é mais permitido”, diz. “Nesses casos, podemos apenas acionar a Polícia Federal, para que as autoridades lidem com a questão.”

Ser “síndico” de aeroporto requer jogo de cintura. Certa vez, Quinhões foi avisado de que uma senhora estava com um cachorrinho no chão, sem coleira nem nada, o que não é permitido. A mulher já havia resistido a abordagens de outros funcionários, solicitando uma prova por escrito de que existia a tal proibição. Como isso tomaria tempo, Quinhões se aproximou da senhora com delicadeza, para informar que não havia serviço de veterinário no aeroporto. Em seguida, mostrou a ela o tráfego de carrinhos de mala pelo saguão. “E se ele for atropelado?”, perguntou à passageira. Foi o suficiente para que dona rapidamente tirasse o bichinho do chão.

Leandro Quintanilha – leandroq@gmail.com