Todos A Bordo

Sempre viajando, comissários de bordo enfrentam dificuldades para namorar

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Em companhias mais rigorosas, as comissárias têm até horário de voltar para casa. (Foto: Getty Images)

Eles costumam ser jovens e bonitos, embora dificilmente uma companhia aérea admita que os selecione também pela aparência. Mas é comum que comissários de bordo enfrentem dificuldades para manter relacionamentos estáveis: esses profissionais têm pouco controle sobre a própria agenda e algumas companhias mantêm regras que pioram seu isolamento afetivo.

A goiana Marcela (nome fictício – a entrevistada pediu que sua identidade não fosse revelada), de 34 anos, trabalhou por um ano em uma companhia aérea de um país árabe. “A dificuldade de conciliar a vida pessoal com o trabalho é uma das principais razões para desistência desse mundo tão fascinante que é a aviação”, afirma. “Áreas como recrutamento e treinamento acabam sendo uma alternativa para quem quer ter uma vida mais pacata em terra firme.”

A companhia em que Marcela trabalhou até o início do ano estabelece regras que extrapolam o ambiente profissional. “Não se pode casar antes de completar cinco anos na empresa e, mesmo depois desse período, a união só acontece com autorização do CEO.” A companhia também controlava o horário que a funcionária de chegava em casa no Oriente Médio (uma acomodação mantida pela empresa e obrigatória), mesmo em dias de folga. Visitas do sexo oposto só eram permitidas até as 22h.

A comissária tinha ainda de cumprir um descanso mínimo de doze horas antes de cada viagem. Quando ficava de plantão em casa, por até oito horas, não podia sair, mesmo sem a certeza de que de fato trabalharia – e os comissários dessa companhia recebem apenas por horas voadas.

Como sua base era um país muçulmano muito tradicional, Marcela também não podia andar de mãos dadas em público com um rapaz. Em um ano, teve apenas casos breves, no exterior. “Está no inconsciente popular que comissárias de bordo saem com os pilotos, mas não é bem assim”, garante. “O que normalmente acontece são affairs entre os comissários de bordo.” E mesmo esses relacionamentos não duram muito, porque, nessa companhia, as escalas não podem ser sincronizadas e os enamorados mal conseguem se reencontrar.

Só um domingo por mês

A vida romântica do comissário paulista Ricardo (a pedido dele, o sobrenome foi omitido), de 36 anos, é um pouco mais fácil. Ele trabalha há quatro anos na função em uma grande companhia aérea nacional e consegue conhecer, ao final de cada mês, o cronograma do próximo. “Mas nunca uma escala é igual a outra”, diz. Por isso, mesmo seus dias de folga variam todo mês. Sabe apenas que terá oito dias livres no total, sendo um num domingo. Sem rotina, Ricardo chega a passar seis dias fora de São Paulo, a cidade em que mora.

De tempos em tempos, o comissário pode pedir folgas programadas, mas ele prefere guardá-las para ocasiões especiais, como aniversários e casamentos. “Quem não voa pode ter dificuldades para entender essa vida. Muita gente se magoa e se afasta”, diz. Foi o que aconteceu com seu relacionamento anterior, que começou quando Ricardo ainda estava em treinamento. Durou pouco. “Ele não deu conta e terminou – disse que não queria um namoro assim.”

Para Ricardo, também pesa o estigma de que comissários gays têm um caso em cada cidade ou mesmo de que há promiscuidade entre colegas de equipe. Há dois anos, encontrou alguém que o compreendesse – namora outro comissário de bordo, de uma companhia concorrente. O relacionamento vai bem, mas os dois teriam mais facilidade se fossem colegas de empresa, porque, segundo Ricardo, a aviação no Brasil é “gay friendly”. E, por aqui, casais de comissários, heterossexuais ou gays, podem coordenar suas escalas para passar mais tempo juntos em solo.

(Leandro Quintanilha – leandroq@gmail.com)